quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Escândalo da Graça

É possível que você já tenha se acostumado com ela, mas a graça escandaliza. Seus efeitos na história são belos. Mesmo assim, antes de serem agentes de sua manifestação na vida do próximo muitas pessoas se perguntam se valerá a pena o esforço.

Vivemos em um mundo de recompensas. E do tipo onde retribuição só faz sentido se acontecer na mesma moeda e em proporção igual ou maior ao que se recebeu. “Olho por olho. dente por dente” virou álibi para se fazer o que quiser contra quem fez algo contra si. Quem assim pensa nunca entendeu Moisés, já que seu intento era exatamente o de não coibir os excessos da retribuição.

Jesus não mudou a dinâmica. As recompensas ainda dão o tom da caminhada humana. A diferença é que o Nazareno nos ensinou que as retribuições não precisam ser, necessariamente, da mesma natureza do que foi recebido. Nem pautadas apenas pelo crivo do mérito.
O Filho de Deus subverteu a ordem das relações humanas mostrando que, em muitos casos, o efeito pedagógico é maior quando se retribui não a partir do mérito, mas do imerecimento. E chamou essa escolha de graça. Foi exatamente a opção de Deus para resgatar a humanidade.


Graça é a escandalosa escolha de surpreender quem imagina receber o troco no mesmo mal que antes pagou. É mostrar quão subversiva a bondade pode ser na história da humanidade. É acompanhar Deus no movimento de mudar o mundo mostrando que tão importante quanto o que o que se faz é a forma como se reage ao que é feito.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A Utilidade da Utopia

Fernando Birri, cineasta argentino, foi perguntado em uma palestra sobre a utilidade da utopia. Eis a resposta:

“Para que serve a utopia? A Utopia está lá no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Me aproximo dois passos, ela se distancia dois passos. Caminho dez passos, ela se distancia dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Quanto mais eu me aproximo, mais ela se distancia. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso; para me fazer caminhar.”

A bela citação foi feita por Eduardo Galeano, em um vídeo que vale ser assistido do início ao fim.




sábado, 16 de novembro de 2013

Fora dos muros da igreja

Fosse a igreja um castelo, muitos de seus membros seriam como os príncipes que sempre viveram dentro dos seus muros. É sabido de todos que, em tese, muros existem para oferecer segurança. Desde o início da história dos homens protegem os indivíduos e civilizações de seus inimigos. Todavia, a vida dentro dos muros também produz seus efeitos colaterais.
Há fases da vida para as quais se cercar por todos os lados é uma questão de necessidade. De que forma proteger os pequenos e indefesos, senão oferecendo-lhes a segurança dos ‘muros’ – seja lá o que os represente? Sem se sentir seguro dificilmente alguém é encorajado a prosseguir.
Em outros momentos, no entanto, os outrora necessários muros precisam ser derrubados. Afinal, por mais estruturados que sejam os nossos ‘castelos’, nenhum deles jamais nos oferecerá tudo o que precisamos para viver. Explorar com sabedoria o universo para além dos muros é tarefa de quem deseja não apenas prosseguir, mas caminhar como gente grande.
É necessário estar atento e discernir quando os muros da igreja precisam ser derrubados. É a única maneira de se perceber como Deus está agindo do lado de fora. Não foi à toa que o salmista disse, “Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe; o mundo e os que nele habitam”. Imbuído pelo mesmo espírito, Abraham Kuyper afirmou que “não há centímetro quadrado deste mundo do qual Cristo não possa dizer: é meu”.

Como cristãos que galgam a maturidade, nossa tarefa é a de conhecer cada canto dos nossos castelos e, então, explorar o mundo que se esconde para além dos seus muros. Ainda que assustador para alguns, descobrimos que jamais nos sentiremos plenos a menos que, escravos do evangelho da graça, vivermos a liberdade para a qual Cristo nos libertou.